30 maio 2009

Caso clínico - Dermatite na face e no pescoço causada por um aparelho ortodôntico de aço inoxidável

Minna Ehrnrootha; Heidi Kerosuob


Na edição de maio da Revista Angle Orthodontist foi publicado mais um trabalho relacionando alergia ao níquel e tratamento ortodôntico. Desta vez foi um caso clínico.


Introdução


Os aparelhos ortodônticos geralmente têm na sua composição de 8% a 12% de níquel. Durante o curso do tratamento ocorre uma biodegradação do aparelho levando a liberação de íons metálicos na cavidade bucal. Entre eles o níquel.

De todos os agentes sensibilizadores o níquel é considerado a causa número um de alergia de contato, especialmente em mulheres de países industrializados.
Esta condição atinge de 10% a 30% das mulheres e de 1% a 3% dos homens dependendo da idade e de grupos populacionais.

Dado a alta prevalência de alergia ao níquel, reações adversas visíveis aos aparelhos ortodônticos metálicos são surpreendentemente detectados com pouca frequência (0.2% a 0.4% dos pacientes), e estudos têm mostrado que pacientes que são reconhecidamente sensíveis ao níquel podem ser tratados com aparelhos convencionais sem reações de hipersensibilidade.

Evidências têm mostrado que o limiar de excitação de uma reação alérgica ao níquel varia entre indivíduos e no mesmo indivíduo ao longo do tempo.



Relato do caso


Paciente do gênero feminino, com 34 anos de idade com sintomas de DTM. No exame oclusal foi detectada mordida cruzada bilateral posterior e apinhamento severo nos incisivos inferiores e moderado nos incisivos superiores. A paciente era cl I de Angle com tendência a ser cl III.

Na história médica pregressa houve relato de que a paciente apresentava "febre do feno", fazia uso de anti-histamínicos e que era fumante.

O plano de tratamento consistiu de expansão maxilar rápida seguida de tratamento ortocirúrgico com uso de aparelhos fixos.

O tratamento iniciou em janeiro com a disjunção maxilar cirúrgica. O aparelho utilizado foi um Hirax II, com a bandagem dos molares e pré-molares. Antes da cimentação definitiva foi realizado um teste de sensibilidade ao material do aparelho. Foram cimentadas quatro bandas, idênticas às que seriam usadas no Hirax, aos molares e prés superiores por 7 dias. Nenhuma reação adversa foi detectada durante o teste.



Uma semana após a cimentação do aparelho a paciente acordou a noite com um prurido severo na face e detectou um eritema avermelhado com pequenas papulas no queixo, bochechas e no pescoço.

O exame clínico realizado no mesmo dia mostrou um eritema papular com prurido que cobria das bochechas até o peito. Nenhum sintoma intraoral objetivo ou subjetivo estava presente. O aparelho foi removido e os sintomas desapareceram num período de 4 a 5 dias. Duas semanas depois a paciente experimentou reações parecidas causadas por um colar antigo. Este mesmo colar havia sido usado anteriormente sem reações. A paciente recusou continuar o tratamento ortodôntico por causa das reações alérgicas.




Foi realizado um teste de pele na paciente. Os resultados mostraram que a paciente apresentava uma reação fortemente positiva (++) ao níquel e ao cobalto e reação positiva (+) ao paládio.


Discussão


Embora o níquel seja um alérgeno de contato comum, reações de hipersensibilidade severas ao aparelho levando à interrupção do tratamento não são frequentes em ortodontia.

Quando dois metais entram em contato, a corrosão do metal menos precioso é aumentada. Tem sido demonstrado que a solda de prata aumenta a liberação de níquel nos arcos de aço inoxidável. Por causa disso a liberação excessiva de níquel do expansor deve ter ultrapassado o limite de tolerância da nossa paciente.

Pode parecer surpresa que nenhuma reação tenha sido encontrada próximo ao aparelho intraoralmente. Contudo, diversos trabalhos têm relatado que reações de hipersensibilidade aos aparelhos ortodônticos são mais frequentes na pele que na mucosa intraoral. O fluxo salivar parece reduzir a concentração de íons de níquel liberados pelo aparelho na mucosa oral.

De acordo com as evidências, o tratamento ortodôntico não aumenta o risco de alergia ao níquel; nem a alergia ao níquel tem sido mostrada com o obstáculo ao tratamento ortodôntico com aparelhos de aço inoxidável. Ainda, embora a maioria dos pacientes alérgicos possa ser tratada sem desconforto, variações individuais existem, e o tratamento ortodôntico pode agravar uma alergia preexistente. Este parece ser o caso da nossa paciente. Por isso, todas as reações potencialmente alérgicas devem ser examinadas com cuidado e diagnosticadas com testes de pele, e o seu impacto no plano de tratamento deve ser avaliado corretamente.

O exto original pode ser encontrado aqui.

4 comentários:

vanessa disse...

também estou com uma paciente que desenvolveu reação alérgica ao níquel - braquetes de aço.
a coceira e descamação da face regrediram depois de 2 dias da remoção.
não parece ser tão rara assim.
talvez estejamos subestimando os sinais...

Dr. Ricardo Nader disse...

Olá Dra Vanessa, não são mesmo. Estes artigos relatam que de 10 a 30% das mulheres são afetadas.

Aline Hessel disse...

Olá. Faz um mês que estou com aparelho. Uma semana apenas com a parte infeior.
E em volta da boca inteira chegando ao nariz. Estou com muita alergia. São pluridos que parecem espinhas mas não são. E não tem que passe pra que ela desapareçam. Não sei o que fazer
Aline Hessel
Votorantim-SP

Ricardo Nader disse...

Aline, entre em contato com o seu dentista imediatamente.